quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Dinheiro real de mundos virtuais

SCIENTIFIC AMERICAN
Brasil


edição 93 - Fevereiro 2010

Jogos de fantasia on-line movimentam comércio bilionário de troca de ouro virtual por moeda de verdade, sobretudo em países asiáticos
por Richard Heeks

Parece pergunta de um alquimista digital. Como transformar ouro virtual em real? Centenas de milhares de gold farmers (fazendeiros do ouro) em países em desenvolvimento já encontraram a lucrativa resposta. Hoje, eles são empreendedores que ganham a vida lucrando com jogos on-line. Ao assumir personagens de fantasia, matam monstros, mineram metais preciosos ou exercem atividades diversas para ganhar “ouro virtual”, que, em seguida, vendem a outros jogadores, na maioria de países ricos, por dinheiro do mundo real. Compradores e vendedores da moeda virtual usam esse ouro para determinar o destino dos personagens nos jogos de fantasia.

Na China, um gold farmer que vende dinheiro virtual pode ganhar um salário equivalente, ou até mais alto, que o de um montador de brinquedos que trabalha 12 horas por dia em uma fábrica. Assim, essa atividade, surgida há 10 anos, transformou-se numa engenhosa, embora controversa, maneira de as nações mais pobres ganharem dinheiro com tecnologia de informação e de comunicação, e também uma opção para trabalhadores pobres desenvolverem habilidades digitais que podem ser usufruídas posteriormente em outros empregos de TI, longe dos jogos on-line.

Em poucos anos, o gold farming se transformou em uma poderosa indústria. A melhor estimativa sugere que na Ásia, particularmente na China, onde está a maioria dos farmers: mais de 400 mil jogadores passam o dia acumulando ouro. O total anual de comércio em ouro virtual é de pelo menos US$ 1 bilhão. Estima-se que 10 milhões de jogadores em todo o mundo compram ouro ou serviços de gold farmers para avançar no jogo.

Antes praticamente invisível aos que não jogam, o gold farming agora interessa muito a economistas e sociólogos e é visto como um ponto de interseção onde ricos, pobres, o real e o virtual se cruzam. Nos últimos anos, acadêmicos e a mídia em geral desenvolveram um fascínio pela dinâmica de jogos que representam mundos minúsculos, movendo-se em velocidade acelerada – o destino de jogadores e grupos sofre ascensões e quedas em questão de dias e semanas, e não décadas ou séculos, como a vida humana. Interessei-me pelo fenômeno depois de me encontrar com comerciantes de ouro virtual enquanto participava de jogos de fantasia on-line. A relação desse empreendimento com o desenvolvimento internacional, minha área de especialização, direcionou-me para uma nova linha de pesquisa, explorando a sociologia e a economia do gold farming.

Richard Heeks é presidente de Development Informatics e diretor do Center for Development Informatics da University of Manchester, na Inglaterra. Ele tem experiência de 30 anos na intersecção das tecnologias digitais, realizando consultoria para governos e agências internacionais. Ocasionalmente, e só para fins de pesquisa, é claro, ele pode ser encontrado jogando on-line.


http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/dinheiro_real_de_mundos_virtuais.html

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